Os Índios Xetá


► O Contato

A expansão no território paranaense e contactos com grupos indígenas foi assim registrada por Charquette em série de artigos intitulada No rastro do desconhecido selvícola da Serra dos Dourados, publicada no O Estado do Paraná em 10 de novembro de 1955:

No final dos anos quarenta, a "febre do café" contagia todo o Paraná: trabalha-se, luta-se e mata-se por um punhado de terra que sirva para a plantação de cafezais. As férteis terras roxas do norte paranaense já não são suficientes para atender a ganância das companhias colonizadoras que invadem também as regiões de solo arenoso do nordeste, impróprias para a cultura do café; a madeira não interessa, queima-se a floresta para facilitar os loteamentos...

No período citado, agrimensores da Companhia de Colonização que atuavam na região, anteriormente isolada e coberta por mata impenetrável, denominada Serra dos Dourados, avistaram estranhos índios.

1949. O Auxiliar de Inspetoria, Wismar da Costa Filho, do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), visita a região da Serra dos Dourados, para verificar a procedência das noticias da existência de “índios selvagens" naquele local. Os índios, sendo arredios, não se deixam alcançar, mas são encontradas suas aldeias e artefatos.

1951. O Inspetor do SPI Deocleciano de Souza Nenê visita a região ainda para verificar a suposta presença indígena na Serra dos Dourados, onde opera a Colonizadora Suemitsu Miyamura & Cia. Ltda. O Inspetor confirma a presença de índios no local, porém novamente não consegue alcançá-los.

1952. Um menino indígena de aproximadamente oito anos, Tikuein Ueió, é capturado pelos agrimensores da Cia. de Colonização, juntamente com um adulto, em 3 de junho de 1952. Em decorrência deste contacto e captura, o Departamento de Geografia, Terras e Colonização do Estado do Paraná comunica ao SPI a presença indígena na Gleba Serra dos Dourados, e pede providências, em 23 de junho do mesmo ano.

Atendendo ao pedido, o Inspetor do SPI viaja novamente ao local, onde confirma a veracidade das informações e percorre alguns locais na tentativa de estabelecer contacto com os índios. Estes fogem a toda aproximação, inclusive sem tocar os presentes deixados pelos agrimensores.

O índio adulto, que permaneceu alguns dias com os agrimensores, também foge, ficando o menino, o qual é levado para Curitiba pelo Inspetor, que lhe dá o nome de Antônio Guairá Paraná, ou Kaiuá, nome pelo qual ficou conhecido entre os brancos.

1953. Outro menino, lnambu Guaka, é capturado pelos medidores de terra da mesma companhia. Este também é levado para Curitiba e criado pela família do Inspetor, recebendo o nome de Tukanambá José Paraná.

1954. Manhã de seis de dezembro de 1954, seis homens “nus’ saem de suas moradias na floresta em direção à casa daqueles desconhecidos que ocuparam suas terras e nela fixaram residência, criando estranhos animais (gado, cavalo, cachorro) e utilizando instrumentos de ferro para derrubar o mato e as árvores (foice, machado e enxada). Como medida de proteção, os índios deixam alguns dos seus companheiros cuidando das mulheres e das crianças, enquanto outros deles, em pontos estratégicos, observam à distância, no intuito de resguardá-los do possível ataque daqueles homens estranhos, que vestiam roupas e tinham pelos no corpo.

Demonstrando que estavam em missão de paz, escondem seus arcos e flechas na mata e rumam em direção ao ponto almejado, a Fazenda Santa Rosa. Esta fazenda, pertencente ao deputado estadual Antônio Lustosa de Oliveira, havia sido instalada em 1952 nas imediações do córrego do Peroba, afluente da margem direita do Indoivai, próximo às atuais cidades de Douradina e Ivaté, região também conhecida como Serra dos Dourados, no noroeste do estado do Paraná. Neste local, os indígenas que mais tarde viriam a ser denominados Xetá, estabelecem o primeiro contacto com brancos, através do administrador da propriedade, Antônio Lustosa de Freitas, e de seus familiares.

Os seis homens nus eram Iratxameway, Ajatukã ou Ta’hey, o adulto  Eirakã, Kuein Manhaai Nhaguakã e o jovem Eirakã.

1955. Com a colaboração de Ajatukã, o administrador da Fazenda Santa Rosa (Antônio Lustosa de Freitas) consegue alcançar outra das aldeias Xetá, a de Mă, conhecido como Haikumbay, irmão de Ajatukã e Iratxameway.

Em outubro de 1955 e realizada uma expedição de contacto pelo SPI, acompanhada pelo antropólogo e professor da Universidade Federal do Paraná José Loureiro Fernandes, pelos dois meninos Xetá capturados (Tuka e Kaiuá), entre outros não-índios. A expedição localiza aldeias e objetos de cultura material, hoje parte dos acervos etnográficos do Museu Paranaense (Secretaria de Estado da Cultura), do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Paraná e do Museu de Arqueologia e Etnologia de Paranaguá (Universidade Federal do Paraná). A equipe, porem, não encontra novos grupos indígenas, nem mesmo os seis que haviam visitado a Fazenda Santa Rosa.

Na mesma época, o deputado Antônio Lustosa de Oliveira propõe na Assembleia Legislativa a criação de um Parque Florestal Estadual na região da Serra dos Dourados, onde se previa uma área para ser destinada aos Xetá.

Um mês depois, novembro de 1955, é realizada outra expedição do SPI visando o contacto com os índios, os quais desta vez são encontrados na Fazenda Santa Rosa. Os dois meninos, Tuka e Kaiuá, novamente acompanham a equipe como intérpretes. A expedição chega também na aldeia onde vivia Mã e Ajatukã. Nesta ocasião, a pequena Moko, ou Ã,  também chamada Maria Rosa Padilha ou Maria Rosa à Xetá, e trazida para Curitiba pelo Chefe do SPI – Dival José de Souza.

1956. Dias 20, 21 e 22 de fevereiro, a expedição de pesquisa da Universidade Federal do Paraná, coordenada pelo professor e antropólogo José Loureiro Fernandes, guiada por Ajatukã, Mã, Tuka, o administrador da Fazenda Santa Rosa e o mateiro Pedro Nunes, localiza dois subgrupos Xetá no interior da floresta. Entre eles, o núcleo familiar de Nhengo e alguns amigos do pai de Tuka. Nenhum dos dois subgrupos recém-localizados segue-os até a fazenda. Durante o encontro foram produzidas imagens fotográficas do grupo encontrado, por Vladimir Kozák. Assim sendo, várias cenas apresentadas neste trabalho são originárias desta aproximação da expedição de pesquisa com os Xetá no seu território de origem.

Por volta do mês de outubro ou novembro, o núcleo familiar de Nhengo é massacrado no interior da mata por brancos armados. Localizado sozinho, ele e levado por repórteres da Revista Manchete para junto daqueles que viviam nas imediações da Fazenda Santa Rosa.
Em novembro do ano em questão, e realizada outra expedição de pesquisa pela Universidade Federal do Paraná, com vistas a efetuar novas observações etnográficas. A equipe manifesta-se convicta de que o habitat Xetá era o Córrego 215, tributário da margem esquerda do rio Ivaí, porem não localiza mais nenhum outro grupo indígena.

Neste mesmo ano, Tinguá, filha de Iratxamëway, de aproximadamente oito anos, nominada posteriormente Maria Rosa Tiguá Brasil, foi separada de seus pais e levada para ser criada pelo administrador da fazenda e sua esposa.

Pouco tempo depois, provavelmente 1957, Tikuein Gamei, nominado posteriormente Geraldo Brasil, filho de Mã, também é retirado dos pais para ser criado pelo administrador da fazenda.

1957. Reivindicada no Congresso Nacional a criação do Parque Nacional de Sete Quedas, onde deveria ser destinado um local para os Xetá.

Durante o mês de maio (do dia 13 ao 27), foi realizada nova viagem de pesquisa pela Universidade Federal do Paraná à Serra dos Dourados. Mateiros informam presença de índios Xetá no riacho Maravilha, porem não e confirmada a procedência da informação.
Em outubro, o Inspetor do SPI viaja á Serra dos Dourados acompanhado por Tuka a fim de instalar um Posto de Atração para abrigar os índios Xetá que ainda viviam nas matas. A tentativa, porém, não prospera, dispersando-se cada vez mais os índios remanescentes.

1958. De 12 a 29 de janeiro e realizada viagem de pesquisa pela Universidade Federal do Paraná para coleta de dados junto aos índios Xetá que permaneceram junto á Fazenda Santa Rosa.

1959. Durante os meses de julho e outubro, são realizadas expedições de pesquisa pela Universidade Federal do Paraná com vistas à localização de possíveis grupos Xetá e levantamento fitogeográfico da região. Mateiros que trabalham no local informam existir grupo de índios Xetá fugindo dos brancos, vivendo na região do riacho Maravilha.
A mais ou menos seis quilômetros de distância da Fazenda Santa Rosa, uma pequena aldeia Xetá é habitada por duas famílias: Ajatukã, suas duas esposas e dois filhos, e Eirakã, esposa e a filha Tiguá.

A Gazeta do Povo, em 3 de dezembro de 1959, publicou o artigo Recuo melancólico dos Xetá na Serra dos Dourados: a insânia pioneira perturba a obra da natureza:
Em dezembro, a Companhia Brasileira de Colonização e Imigração (Cobrinco), que atuava na região, intensifica a ocupação do território Xetá. “Seus caminhões teriam sido vistos pelo menos duas vezes conduzindo os índios para fora da Serra dos Dourados. Qual o destino? Nada se sabe. Ninguém, ao que parece, até agora procurou averiguar (...). Pessoas temem fazer denúncias".

1960. Nos meses de julho e setembro, a equipe de pesquisa da Universidade Federal do Paraná, composta pelo linguista Aryon Dall’lgna Rodrigues, O antropólogo José Loureiro Fernandes, o cinetécnico Vladimir Kozák e a arqueóloga Annette Laming Emperaire, esta do Museu do Homem de Paris, coleta dados junto á aldeia do grupo de Ajatukã.

1961. No período de janeiro a fevereiro e realizada a última viagem de pesquisa ao local do grupo acima referido. Mateiros que realizam a derrubada das florestas para as companhias colonizadoras e comunicam novamente sobre a presença de índios sem contacto nos remanescentes das áreas ainda não desmatadas (o córrego Maravilha e outros).
Aumenta a destruição da mata e das aldeias pela ação do fogo. Já não existem mais terras na região que não tenham sido expropriadas pelos colonizadores e a reserva de mata ainda existente já pertence a particulares.

Março de 1961. Mã, seu filho Tikuein (ou José Luciano da Silva, como foi registrado pelos brancos) e Nhengo são lavados pelo funcionário do SPI, João Pereira Gomes, conhecido como João Serrano, para a área indígena Pinhalzinho, no município de Tomazina.

Maio de 1961. Criado o Parque Nacional de Sete Quedas, mediante o Decreto Presidencial n.° 50665, de 30 de maio de 1961, no qual deveria ser reservado um local para abrigar os Xetá. O Parque, entretanto, não será efetivado, ficando os Xetá sem território demarcado para o grupo.

1962. Em junho “Lavradores sem terras destroem impiedosamente os remanescentes da tribo Xetá no noroeste do Estado. Consta que várias crianças foram sequestradas...”. (O Jornal, 1962).

1962/1963. Ídios Xetá são vistos vagando pela cidade de Umuarama em estado de completo abandono.

1963. Eirakã, sua esposa Aruay e o filho Tikuein são transferidos para o Posto Indígena Marrecas dos Índios, no Município de Guarapuava.

1964. Em fevereiro, morre Ajatukã. Sua esposa e filhos perambulam entre a mata e a fazenda Santa Flosa na luta pela sobrevivência.
Durante os meses de julho e outubro e realizada expedição de pesquisa da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Presidente Prudente, que percorre a região da Serra dos Dourados à procura de
grupos Xetá. Não os encontra.

1966. Morre a esposa de Ajatukã.

1967. Morrem no Posto Indígena de Marrecas Eirakã e sua esposa Aruay, deixando dois filhos, Tikuein e Rondon.

1972. Morre Mã.

1973. Em 25 de janeiro, morre Tikuein Gamei (Geraldo Brasil).

1973. Morre Nhengo.

1976. Morre Kaiuá.

O povo Xetá desaparece do cenário paranaense. Sobrevivem alguns indivíduos (crianças e jovens), transferidos do seu território, retirados do convívio de seus familiares e de seu referencial cultural, criados por famílias brancas que habitavam diferentes pontos do estado do Paraná, e encaminhados alguns a postos indígenas.



Recomendar esta página via e-mail: