Vladimir Kozák e a Congada da Lapa

  Considerada uma das expressões da cultura popular brasileira, o auto da Congada remonta ao período colonial e faz parte ainda hoje das tradições de Minas Gerais, São Paulo, Paraná e de alguns estados do nordeste. O argumento central desta manifestação popular é a história da colonização portuguesa na África, particularmente o domínio e cristianização dos reinos do Congo e de Angola.
    O filme da Congada da Lapa produzido por Vladimir Kózak em 1951 é o registro cinematográfico mais antigo de uma manifestação da cultura popular de matriz afro-brasileira no Paraná e pertence ao acervo do Museu Paranaense. Este trabalho foi realizado para a pesquisa do médico e antropólogo José Loureiro Fernandes e registrou ao longo de 50 minutos de filmagem colorida, as diversas etapas do auto da Congada.
    Utilizando um recurso poético este filme de Kózak tem início com o personagem do rei do congo, na ocasião interpretado por Celeste Ferreira, dormindo à sombra dos pinheiros.
    A intenção de Kózak é introduzir o público assistente de seu filme no sonho do rei, criando uma situação lúdica, mas sem a utilização de efeitos sonoros ou falas, pois o filme não possui áudio.
    Na película, após percorrer o centro histórico da Lapa, o Rei dirige-se para a periferia da cidade onde os personagens da congada preparam-se para uma apresentação. Juntamente com o rei o cortejo real, devidamente caracterizado, percorre as ruas da cidade até o local da apresentação onde havia sido montado um palco.
    Começam as danças, cantos e declamações dos diversos personagens que compõem o auto: rei, rainha, príncipe, secretário, embaixador, cacique e os meninos conguinhos. Estes encenam a visita da embaixada da rainha Ginga do reino de Metícula na Angola ao rei do Congo Zumbi Ganaiame. Esta ruidosa embaixada chega em um momento impróprio, interrompendo os festejos de devoção a São Benedito e causando um incidente diplomático. Após a dramatização de uma guerra o rei do Congo vence e convida a embaixada de Angola para participar das homenagens ao santo.
   
    No Paraná, além da Lapa há registros de Congadas realizadas em Curitiba, Castro e Paranaguá. Os festejos realizados no dia de São Benedito (26 de dezembro), constituíam uma das atividades relacionadas às irmandades católicas de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito. Entretanto somente a Congada Lapeana chegou até os dias atuais. Esta importante manifestação encenada por descendentes de escravos da região e o conhecimento do texto e das músicas que compõem o auto é uma herança da família Ferreira.
    Em novembro de 2006 o Museu Paranaense montou uma exposição sobre a Congada da Lapa e manteve contato com a Associação da Congada da Lapa, realizando entrevistas com os irmãos Miguel e Nei Ferreira, que ocupam atualmente os papéis de rei do Congo e Embaixador da rainha Ginga.
     Os irmãos Ferreira são os guardiões da memória do grupo, tendo reunido um rico acervo formado por trajes antigos, fotos e notícias de jornal sobre a Congada. A peça mais preciosa, guardada a sete chaves, é um caderno manuscrito datado de 1935 no qual estão registradas as falas dos personagens da Congada.
Segundo Nei Ferreira uma das expectativas do grupo é conseguir uma sede própria para realização dos ensaios e para guardar a indumentária e o acervo histórico. Apesar da falta de recursos e das dificuldades para manter o grupo coeso a Congada da Lapa sobrevive.
    Mais do que uma encenação sobre o colonialismo português e a conversão à fé cristã dos reinos do Congo e de Angola, a Congada nos remete à uma África mítica e poderosa. Ao encenar o auto, os afro-descendentes da Lapa reafirmam sua identidade, buscando visibilidade cultural em um estado marcado pela valorização da história das tradições dos imigrantes europeus.

Msc. Fernanda Maranhão
Setor de Antropologia
mariafernanda@seec.pr.gov.br
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