Conheça a história do MUPA, um dos museus mais antigos e importantes do Brasil
20/10/2021 - 13:34

Em uma das salas onde funcionava o Tesouro do Estado, onde hoje fica a Praça Zacarias, em Curitiba, o Museu Paranaense foi inaugurado no dia 25 de setembro de 1876. Naquela altura, o Brasil como um todo tinha pouquíssimos museus ou instituições científicas formalmente estabelecidas. Para se ter uma ideia, o Museu Nacional do Rio de Janeiro, nosso primeiro museu de fato, foi fundado em 1818. O segundo, Museu Paraense Emílio Goeldi, surgiu em 1866. Esses dois marcos colocam o Museu Paranaense na importante posição de terceiro museu mais antigo do país e o primeiro do Paraná.

Nos 145 anos de sua existência, o Museu Paranaense passou por incontáveis e profundas transformações. De instituição privada passou a ser pública, mudou de sede por sete vezes e hoje é carinhosamente conhecido por público, colaboradores e pesquisadores como MUPA. Apesar de todas essas mudanças, uma coisa sempre se manteve: o compromisso em comunicar aos visitantes a diversidade e a riqueza dos povos, fauna e flora, bem como a história paranaense, brasileira e, claro, latino-americana.

Mas para entender quase um século e meio de existência e a mais recente (porém profunda) mirada da instituição com questões latentes da contemporaneidade e com uma postura crítica sobre sua trajetória histórica, contamos abaixo um pouquinho de como tudo se deu até chegarmos ao MUPA que conhecemos hoje.

O princípio – O Museu Paranaense foi idealizado pelo desembargador Agostinho Ermelino de Leão e pelo médico José Cândido da Silva Murici. Nos idos de 1876, a instituição era formada pelo museu e por um jardim de aclimação e o objetivo de seus fundadores era difundir as riquezas naturais, históricas, agrícolas e industriais do vasto território da então Província do Paraná.

O acervo inicial contava com 600 peças, entre objetos, artefatos indígenas, moedas, pedras, insetos, pássaros e borboletas. Ao longo dos anos o museu foi enriquecido com diversas coleções, que eram doadas pela população ou adquiridas pelo Estado. Atualmente, o acervo do MUPA conta com mais de 800 mil itens e é considerado um dos mais importantes de toda a América Latina.

Para Josieli Spenassatto, coordenadora do Setor de Antropologia do MUPA, ao contrário do que se pensa no senso comum, os museus não são “depósitos de coisas velhas''. "Eles são, sim, lugares de acondicionamento de itens feitos e utilizados no passado, mas é preciso atentar para os objetivos de tal prática, que são o coração dos museus históricos e antropológicos." Segundo ela, o acervo do MUPA é importante a partir do prisma dos patrimônios, sejam eles do domínio do poder, da política, da economia, mas também sob o prisma dos patrimônios históricos, artísticos e culturais dos povos indígenas de toda América Latina, das culturas populares interioranas, das comunidades tradicionais como caiçaras, quilombolas e ciganas.

Mudança para a administração pública e a vocação para pesquisa científica – Em 1882, o museu deixou de ser particular e foi transformado em órgão oficial de governo. A mudança do status privado para a administração pública propiciou que o Museu Paranaense se tornasse um espaço de recepção e financiamento de diversas “missões científicas” para o Paraná, bem como o desenvolvimento de expedições a campo ao longo de sua existência.

Na primeira metade do século XX o MUPA transformou o Paraná em um polo de pesquisa científica. Atuando em diversas frentes, o museu construiu e foi construído por uma série de pesquisadores como o entomólogo Jesus Santiago Moure, o antropólogo José Loureiro Fernandes, o artista e malacólogo Frederico Lange de Morretes, os historiadores Arthur Martins Franco, Romário Martins e Júlio Moreira, o pesquisador botânico Karl Dusén, o geólogo e naturalista Reinhard Mack, o documentarista e fotógrafo Vladimir Kozak, dentre outros. 

Por meio de seus pesquisadores e corpo técnico/administrativo, o museu enriqueceu seus acervos, fomentou a pesquisa e a educação museal, criando um ambiente favorável ao conhecimento crítico e de acesso público, contribuindo significativamente para a pesquisa e registro da flora e da fauna, das sociedades múltiplas que habitam o Paraná, dos fatos e eventos históricos da Colônia à República.

Entre 1950 e 1970, com a reestruturação das universidades e a perda de pesquisadores, parte do acervo de história natural é redirecionada para fundar outras instituições, como o Museu de História Natural Capão da Imbuia, o Museu Botânico de Curitiba, Museu de Arqueologia e Etnografia da Universidade Federal do Paraná e o Instituto de Biologia e Tecnologia do Paraná, atual Tecpar. A partir dessa mudança, o museu passou a especializar-se nas áreas de Antropologia, Arqueologia e História.

Sedes ocupadas – Desde a sua inauguração, o Museu Paranaense ocupou seis outras sedes, até fixar-se na atual, o Palácio São Francisco, localizado no coração do centro histórico de Curitiba. Seu complexo arquitetônico, formado pelo palácio histórico e dois anexos, soma uma área de 4.700m².

Além das salas de exposições históricas do acervo, possui salas para exposições temporárias organizadas dentro de temáticas com contexto histórico e social. No espaço, há uma biblioteca, auditório, laboratório, onde até as restrições determinadas pela pandemia de Covid-19, frequentemente eram promovidos palestras, encontros, oficinas e apresentações artísticas.

Museu Paranaense hoje – Atualmente, além dos eixos temáticos História, Arqueologia e Antropologia, o MUPA abre espaço para outras narrativas, criando conexão entre as ciências e a arte. "Desde 2019, o Museu Paranaense tem apostado em trazer ao público seus acervos de forma interdisciplinar, convidando agentes de campos científicos e artísticos para lançarem diferentes olhares sobre os objetos históricos, antropológicos e arqueológicos que compõem o acervo da instituição", afirma Gabriela Bettega, diretora do Museu Paranaense.

Dentro da ideia de pensar um acervo secular em conexão com o pensamento contemporâneo, proposta que embasa o trabalho da atual gestão, há um empenho na aquisição de novos acervos no intuito de ampliar a diversidade. E as novas aquisições não se limitam apenas a objetos, mas também ao patrimônio imaterial, aos relatos culturais e experiências de vida. É o caso, por exemplo, da coleta de depoimentos de mestres caiçaras e de imigrantes por meio de registros audiovisuais produzidos pelo próprio museu.

A antropóloga Josieli Spenassatto ressalta que o museu é, ele próprio, um espelho que reflete a nós mesmos, quem somos, nossos interesses, o que buscamos. "Reconhecendo o que existe e o que não existe no acervo, é possível discernir o arcabouço de interesses dos colecionismos que foram praticados e que levaram à seleção de certas peças, e refletir o porquê desses interesses e não outros", afirma. Para ela, esse estudo e reflexão crítica possibilita aprender com o passado e orientar as ações dos museus contemporâneos para o que se deseja como museu agora e para o futuro.

O MUPA do presente se conecta cada vez mais com instituições renomadas nacional e internacionalmente, como é o caso de parcerias importantes com a Fundação Joaquim Nabuco de Recife (PE), o Museu de Arte do Rio de Janeiro (MAR) e o espaço cultural do BRDE – Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo-Sul.

O projeto educativo do museu também passou por significativas reformulações. O público escolar e o público espontâneo infanto-juvenil agora têm uma participação mais ativa, como é o caso da proposta educativa da exposição Ephemera/Perpétua, que coloca as crianças no papel de pesquisadoras, visitando a mostra com lupas e cadernetas assim como os pesquisadores apresentados nela.

A diretora Gabriela Bettega acredita no MUPA como "um museu que se abre para novas possibilidades a partir da sua própria história de 145 anos". Seguindo este fluxo, o público já pode esperar uma intensa programação de mesas-redondas, encontros, debates, palestras e novas propostas expositivas que prometem grandes reflexões e experiências já a partir deste segundo semestre de 2021.

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