Arte Panfletária: Curitiba, 2025, do artista Elilson
Narrativas multivocais reunidas por meio da performance
“Arte Panfletária: Curitiba”, em dezembro de 2025.
Em 2017, eu estava sentado no meio do Calçadão da XV de Novembro e, ali, vendo a vida, ouvindo da vida e pensando na vida, tive a ideia para este trabalho. Na quinta-feira, 11 de dezembro de 2025, aproveitando o ensejo de um sol quente e inesperado, finalmente realizei ARTE PANFLETÁRIA em Curitiba. Partindo do MUPA, acompanhado por Helena e Roberta, do Educativo, e do fotógrafo Kléber Holanda, desci em direção ao labirinto nervoso, festivo e plural que é o centro comercial desta cidade. Durante 4h e 30 minutos, vivenciei o conjunto de encontros que partilho a seguir. Primeiramente, paramos em um armarinho mil e uma variedades na Praça Generoso Marques. Rosa, uma das vendedoras, me indicou as melhores opções de alfinetes de segurança e me deu uma tarjeta na cor rosa, plastificada, com seu nome impresso. É meu? Perguntei, todo animado, já alocando na altura do coração: vai ficar ótimo aqui, não acha? Ela prosseguiu: “Você entrega lá no Caixa para efetuar o pagamento!”. Ao perceber minha lamentação, aos risos, ela proferiu: “Você gostou tanto assim? Um detalhe rosinha, daí! Se você pedir com jeitinho, com essa vontadezinha, talvez te deem”. No caixa, a atendente foi simpática, mas resoluta: “Não dá, tem poucos. Esse aí é um teste que a gente fez pra adaptação. Passa aqui outra semana que eu te dou um”. Agradeci e, antes de me virar em direção à rua, escutei o questionamento de outra funcionária: “Ele queria o cartãozinho?”. “Acho que ele coleciona”, explicou a caixa. “É, cada uma com as suas, né?”, concluiu a funcionária, fazendo um sinal de lelé ao lado da cuca. Na saída, Rosa estendeu o olhar para as minhas mãos. Não teve jeito, eu falei. “É que tem pouquinho, né? Mas não passa vontade, não. Compra um papel rosa e volta aqui, que eu peço para te darem o emblema, aí você imprime”. Só vai servir se você assinar, eu respondi.
Segui por uma das passarelas da praça com o resto de uma gargalhada estampada no rosto, lembrando da mulher abismada com minha suposta coleção. Duas vendedoras à frente de uma loja cruzaram o olhar comigo e, do nada, soltaram uma risada. Não perdi a oportunidade e pedi logo um panfleto. “É que você tem uma cara engraçada”, partilhou uma delas, complementando: “Já é quase natal, daí agora só temos cartão, serve?”. Ao escutar que eu só pararia de caminhar quando estivesse todo panfletado, clamou para a amiga: “Vai lá dentro e já pega dois, que a penitência dele é longa!” Como sempre acontece no início dessa performance, Sofia e Rebeca escolheram meu peito para prender seus anúncios. Cada bolso passou a estampar: La Bella. Curioso pela afinidade das duas, perguntei há quanto tempo trabalham juntas. “Eu tô aqui faz dois meses, ela, o moço não vai acreditar”. “Eu tô aqui há 18 anos”. Neste mesmo ponto? “Sim, todo santo dia, sem tirar nem pôr, nesta calçada”. Você já deve ter visto de tudo aqui, né? “De tudo e muito mais, mas só guardo o que é alegre; na rua, se divertir é o que importa”. Acolhendo sua filosofia, prossegui.
Na boca da Boca Maldita, avistei um senhor com boina, camisa vermelha xadrez, megafone em uma mão e um cardápio gigante na outra. Moço, boa tarde, tem panfleto do restaurante? “Não tem, mas fica bem aqui, é só entrar e comer. E pagar!”. É que eu tô procurando panfletos mesmo. “Aqui só tem o meu gogó, mas lá no final da XV tem um piá chamado Paulista, só pegar com ele!”. E qual o nome do senhor? “Natalino”. Natalino? Eu amei seu nome. Vou encontrar Paulista e dizer que o senhor me prometeu um panfleto! “Isso, diga que é meu amigo e pegue lá quantos quiser”. Valeu, Natalino! Dando legal, ele rapidamente retomou seu refrão: “Não passa não, vem que tem promoção! Buffet Dona Ivone, pra matar sua fome!”.
Na sequência, foi uma panfleteira que me abordou: “Aproveita, que eles também fazem joias”. Quando expliquei para que queria o panfleto, Maira riu, soltou um “ai, ai”, pegou o alfinete e decidiu: “vou colocar aqui, perto das amigas dos cosméticos”. Disputando o destaque na minha vitrine coracional, ela orientou: “Só aqui na Luiz Xavier, com a quantidade de Ourives, você vai terminar esse trabalho rapidinho!” Escaneando a rua só com uma olhadinha, confirmei que a maior fartura gráfica da menor avenida do mundo é a compra e venda de ouro. “Mas não é só aqui” – continuou Maira – “desde que minha avó era menina, em qualquer canto do mundo, vai ter sempre um panfleto, uma vitrine ou um outdoor anunciando compra e venda de ouro. Agora ainda mais, já que reciclar o ouro virou lei internacional!”. Ao me ver surpreso com a informação, ela me ensinou: “Ué, ouro é que nem petróleo, o solo tem que descansar pra produzir mais. Aqui no Brasil, o Governo Federal proibiu a extração e venda de barras de ouro”. Por causa da poluição ambiental? “Nada, meu filho, por conta da China, o mundo é um negócio deles, mas tem coisa que nem adianta a gente explicar”. Sem resistir à minha cara de conta mais, ela continuou: “Eu sou escriturária, sabe?”. Eu arrisquei: Hmm, você faz escritura de imóveis? “Não! É quem produz arquivos, qualquer artigo ou documento. Hoje minha profissão tá praticamente extinta. Quando eu comecei era através da digitação, antes de mim era a datilografia”. Ah! Você é datilógrafa?! “Não, menino, eu sou es-cri-tu-rá-ria! Trabalhei num banco, mas ele foi vendido, adivinha pra quem? A primeira coisa que a China fez foi demitir todos os brasileiros”. E, no fim das contas, quem diria, é o ouro que nunca vai deixar o panfleto se extinguir, concluí, resumindo a aula que ela me deu. Nos desejamos bom trabalho e segui.
Eis que surgiu um colete verde marca-texto com letras pretas garrafais: Dom Siciliano. Dom Siciliano?! “Oi!”, me atendeu, um pouco aturdido, mas confirmando: “Tá falando comigo?”. Sim, o senhor por acaso tem panfletos? “Hoje em dia a gente não entrega, a gente veste o panfleto – eu sou O homem-panfleto!”. Pois hoje eu só paro de andar quando me tornar um! É que eu queria algum de comida pra variar, só encontro de ouro. “Pois toma aqui mais um”, se aproximou Nelí. “Acaba de encontrar sua prima, Eli”, brincou o Homem-Panfleto - para os desavisados, Dom Siciliano. Nelí e Eli, daria uma boa dupla sertaneja, eu dei corda, ao passo que ela soltou a voz da razão: “E você é afinado?”. Ih, não sirvo nem pra segunda voz, Nelí. “Mas é a segunda voz quem sabe ouvir melhor!”. Pois, fala que eu te escuto: onde colocamos o teu? “Aqui, meu anjo, mas põe você, eu tenho medo de te espetar”. Nada, vem que eu confio. “Mas isso não vai estragar sua roupa, menino?”.
Na sequência, me aproximei da bancada da “Raspadinha Sortida: apostou, ganhou”. “Boa tarde”, responderam em coro as três mulheres. E esse panfleto aí, é pra mim? - perguntei ao homem que detinha um maço de divulgação. “Boa pergunta, jogador. Ele nasceu pra você. Nada é por acaso: quando uma coisa desperta a nossa curiosidade, pode confiar que é destino!” Quando puxei um alfinete para explicar minha intenção, começou a elencar todos os benefícios da Sortidas da Sorte: “A cada 10 minutos, durante as 24 horas do dia, aparecem cartelas para você jogar. Com apenas 5 e 10 centavos, você pode ganhar 800 mil reais! Pega aí o teu celular pra gente baixar o aplicativo e comprar a primeira rifinha.” Escapuli da oferta e ele, acolhendo o meu propósito, lamentou a falta de vaga no meu peito. De raspão, prendeu o anúncio de bets nas minhas costas. Apontando para o meu corpo de cima a baixo, exclamou para as colegas: “É disso que eu tô falando, é disso que eu tô falando! Você é influencer, jogador?”. Eu? Eu não consigo influenciar nem a minha vida! “Pois eu vou te dar um incentivo”. Me presenteou com um kit que continha abridor, caneta e doce. “Toma aqui: abre uma bera, chupa um pirulito, anota tuas metas e marca a gente no TikTok!”. Quando nos despedimos, percebemos que uma roda de transeuntes havia se acercado de nossa interação. Olha aí, vai vender um monte de cartelas, ninguém vai ganhar 800 mil e eu tampouco uma comissão, ironizei. “Você tem a energia boa, rapaz, esse é o seu poder”, ele atribuiu. Levando a calça e exibindo as meias com estampas de Batman, completou: “Cada um com seu poder”. Aceito! Gritei, dirigindo minha voz às mãos de Sr. Valdir. “Mas é claro, meu anjinho!”. Onde o senhor quer colocar? “Onde você se sinta bem, meu querido!”. Nascido e criado em Curitiba há 63 anos, me contou que se aposentou há sete e há 4 trabalha com panfletos: “ninguém imagina, meu abençoado, mas a cada entrega, é uma coisa nova que eu aprendo”. Eu imagino bem, Seu Valdir. Posteriormente, recebi o panfleto de Israel. Ao analisar onde colocaria, identificou um a um os anúncios de ouro da concorrência. “Legal, piá, gostei muito dessa ideia!”. Então, escolha aí: tem pernas, tem braços, tem costas... Curvando a cabeça e encostando a mão no queixo, a lá O Pensador, decidiu: “Tem que ser como diz o Milton, do lado do peito, debaixo de sete alfinetes, assim fala a nossa canção...”. Que em Curitiba ouvi!
Foi, então, que finalmente conheci em carne, osso, gorro e barba, ele, o Papai Noel. Ao me ver aproximar, adaptou sua onomatopeia clássica ao calor de 20 e tantos graus, abanando as mãos: “He he he!”. Após me panfletar, Seu João me indicou todas as ruas onde eu encontraria mais propagandas do restaurante para o qual trabalha, e me disse: “Boa páscoa!”. À minha gargalhada, se orientou: “Eita, errei a data. Se eu não vê-lo mais: feliz natal, feliz ano novo, bom carnaval, boa páscoa e feliz tudo que vem!”. Caminhando, virei duas ou três vezes ao escutar suas variações: “ho ho ho”, “ha ha h”, “hi hi hiiiiiiii”. Aproveitando o vermelho da roupa, ele ainda varia de personagem: “He he he, he he he” (feito o Pica-Pau). Em seguida, Sr. Jorge me entregou seu anúncio de crediário. Escolhida a vaguinha no meu abdômen, uma dúvida nos acometeu: Qual face do papel ficará para a rua: dinheiro na mão ou faça dinheiro? Sem parcelas, ele solucionou: “Dinheiro na mão, mas cuidado com o vendaval!”.
Atravessei a rua e Isadora, uma vendedora de artigos desportivos, me enunciou para um de seus colegas: “Chegou a propaganda grátis! Vai lá dentro pegar o nosso panfleto”. Na entrada da loja, João exclamou: “Porra, você é O
marketing, hein, pai?”. O facilitador do panfleto, ao receber os alfinetes, titubeou: “E se eu machucar ele, rapaziada?”. Tô paradinho. Panfleto anexado, comemoração coletiva: “Aêêê!” “Aí, pai!” “Aí, sim, hein? Volta aí depois que você vai ganhar um presente da loja”. Promessa que instaurou um silêncio e que foi logo desfeita pela risadagem geral.
Com seus óculos escuros, boné bege e colete amarelo, Seu José me contou: “Aqui não tem muito dessas coisas, mas cê sabe que lá no Litoral, em Matinhos, tem um senhor que vai em todas as lojas, pega todos os panfletos e depois cobra para distribuir. Será que é teu tio?”. Perguntei se a água do mar de Matinhos é muito gelada. Ao ouvir que sou de Recife, brincou: “nadar no gelo do Sul ou no quentinho dos tubarões?”. Depois, tirou o celular no bolso e me mostrou uma foto com um homem em frente ao mar. “Esse aqui é Júnior”. Seu filho, né? Júnior mesmo, é sua cara! Ele tá em Matinhos? “Não, homem, isso é Recife, olhe direitinho!”. Primogênito de cinco filhos, Júnior mora lá há dois anos, pois a esposa, minha conterrânea, não se adaptou a Curitiba. A cada foto, os olhos de Seu José brilhavam e a boca não comedia os elogios: “Bom menino”, “esforçado”, “companheiro”, “criativo”, “talentoso demais”. Em um dos registros, uma torta toda ornamentada, dessas que a gente saliva só de olhar. “Ele é padeiro e confeiteiro. Tudo isso aí ele cria de cabeça. Sabe como é artista, né, meu filho? Até tirar as imagens da imaginação, não sossegam”. Por um segundo, minha mente foi até Recife, mas ali, diante de tantos panfletos a coletar, contive o desejo súbito de sacar o celular do bolso e ligar para o meu pai. Todo orgulhoso, Seu José ainda me contou que Júnior foi finalista do Super Confeiteiro, um reality de uma TV recifense. Por fim, enviou uma selfie nossa para o filho, com quem se encontrará mais assiduamente: “Eu vou aproveitar o Voa Brasil, essa foi uma das melhores invenções”, vibrou, referindo-se ao programa do Governo Federal que garante passagens aéreas por R$ 200 para aposentados.
Prosseguindo pela Rua das Flores, avistei um palhaço. Todo paramentado com boné prateado brilhoso, óculos rosas preso na cabeça, camisa florida, calça listrada, caixa de som acoplada ao corpo, microfone sem fio e cifrões maquiados no rosto, ele iniciou nosso diálogo: “Opa! Deixa eu tocar aqui, que eu não sou bobo”, esfregando suas mãos nas réplicas de 100 reais dos panfletos de crediário e empréstimo. Locutor de uma loja de variedades, interrompeu o anúncio das ofertas para buscar um panfleto no estabelecimento. Cinco minutos depois, trouxe uma funcionária: “Deixa eu te falar, Zé, isso aí é um personagem seu?”. Respondi que não, que só ando assim para conversar e conhecer as pessoas. “Que da hora, mano. Vai lá, Dri, espeta ele. Cuidado que ela enfia de verdade, ela é zica! Vai devagar, menina!”. Ao que ela respondeu: “Para, palhaço!”. Estendendo a mão, ele finalmente me apresentou seu personagem: “Palhaço Pipoca”! Eli. “Eli Corrêa?! OOOOOOOI, gente!”, brincou, fazendo referência ao locutor nascido em Sertaneja, um dos mais populares do Paraná. Dri, por sua vez, aproximou seu dedo anelar do meu corpo, como se fosse um detector emocional. “É anel do humor, muda de cor, agora tá verde”. E o que isso quer dizer? “Que tamo eu e você com mistura de emoções!”. Sugeriu então que eu fosse na feirinha da Osório comprar o meu, pois é a última moda.
“Que que é isso?”, me perguntou Vilmara, soltando uma rajada de sorrisos bem na hora que de uma viatura dois agentes gesticularam mãos e rosto, como se dissessem: “Eu, hein, que danado é isso?”. Sem palavras, devolvi-lhes uma parte dos gestos, mas com uma risada sem som e sem dentes. “Meu Deus do céu, o que que é isso? Eu nunca vi isso”, retomou Vilmara. Tá vendo agora! “O que é que você carrega aí?”. Alfinetes, tome um! “Tenho medo de machucar você. Onde coloco?”. Que tal inaugurarmos a calça? Agradeci e ela repetiu suas interjeições: “O que que é isso, meu Deus?!” Me virei 3 ou 4 vezes e em todas ela permanecia com a boca aberta, balançando a cabeça e gargalhando. Quando me curvei avante, me deparei com um panfleteiro trajando uma camisa do São Paulo Futebol Clube. Ahhhh, você é o Paulista?! “Sim!”. O amigo de Natalino? “Eu mesmo, pois não?” Tem umas duas horas, ele me garantiu que você escolheria um ponto da minha roupa para prender o anúncio do restaurante. Você é de São Paulo? Eu moro lá, mas não sou de lá. “Arrg, eu sou gaúcho, tchê! Eu sou do São Paulo, é diferente!”. Atacando o alfinete, ele questionou: “Então quer dizer que você é amigo do Natalino mata rindo?”. Mata rindo? “Sim!”. Por quê? “É pelo tipo de humor dele”.
Em um dos cruzamentos seguintes da XV de Novembro, avistei uma roda com cinco panfleteiras. “Vai pegar um folhetinho para ajudar a gente?”, me perguntou Ana. Vocês é que vão me ajudar! Ao ver a panfletagem simultânea no meu corpo, um panfleteiro se aproximou: “Posso grampear o meu também? Vou colocar na tua bunda, vou deixar ela furadinha”. Me avaliando para além das roupas, concluiu: “Mas já tá furada, né?” Uma das garotas interveio: “Tu és safado, né? Vai pra lá com tua palavra dupla e respeita o rapaz!”. Vocês são amigos há muito tempo? “Sim, fizemos catequese juntos!” – ele respondeu. “É mentira”, cortou uma delas, “todo mundo aqui se conheceu hoje”. Distribuindo panfletos que tentavam angariar pacientes para uma clínica de preenchimento labial, contaram que são modelos. Naquele dia, a agência havia enviado todas para a panfletagem. A cada anúncio anexado, soltavam em coro: “Aahhhhh! Owwwwnnnn! Que lindo! Ficou lindão, moço!”. Atravessando as onomatopeias, o fictício amigo de infância me apontou seu topete alto e azul: “Gostou? Isso aqui é um captador de pensamentos, por isso você parou aqui!”.
Já Thiago, na esquina seguinte, tentou foi captar os meus olhos: “Boa tarde, irmãozinho, vai ali naquela ótica, que só tem gente legal, vão te dar uma armação de brinde. É só comprar as lentes!”. Quando me viu espetando seu panfleto na minha coxa, questionou: “Ah, você trabalha com isso? Como se chama esse trabalho?”. Se chama Arte Panfletária. “Isso é arte? Que maneiro!”. Assim que ele se afastou, uma mãe e uma filha tocaram no meu ombro: “Oi, você trabalha dando informação?”. Nada, eu recebo todas. “Onde é que fica uma casa de embalagens?”. Desculpem, é que eu não sou daqui. “Mas a gente é”, disseram Caio, Amarildo e Lídia, que, após ensinarem o caminho dos plásticos, puseram seus panfletos. Sr. Amarildo averiguou a variedade publicitária: “Olha só! Ele tem ouro, tem farmácia, tem beleza, tem botox, tem self service... só faltou advogado de porta de cadeia!”. Olhando fundo nos meus olhos, sua amiga aproveitou a deixa: “O que a gente faz com uma pessoa que está nos ameaçando?”. Ao me confidenciar, orientei que ela procurasse uma delegacia. Visivelmente querida, a cada três frases ela se distanciava para cumprimentar alguém que passava. Eu amo que ela vai, exclamei para Seu Amarildo. “Ah, ela é assim, meu filho, toda popular. E você é assim, todo publicitário, cada um tem seu jeito nessa vida”. Compadecido pelas horas que ainda me restavam para caminhar, ele começou a me agenciar: indicou lojas desportivas, de cosméticos e de consertos de celulares, garantindo que todas têm centenas de panfletos nas gavetas dos caixas.
Me apresentei como amigo de Seu Amarildo em todas elas, sendo prontamente atendido. Uma das panfleteiras exclamou: “Que porra é essa?”. A outra: “Misericórdia!”. Uma terceira: “Você tá falando sério?”. Um rapaz tentou negociar: “Eu coloco, desde que você retire esse que tá bem no centro do seu peito para o meu ficar em destaque”. Eu não posso, minha única regra é: não pode cobrir nenhum. Ofereci, então, minhas pernas, que ainda estavam quase totalmente disponíveis. Ele ponderou: “Meu amigo, pensa cá comigo: quem é que olha para as últimas prateleiras do mercado? O pior é que às vezes lá estão as melhores promoções!”. “E os produtos vencidos também”, partilhou seu colega, me orientando: “Rapaz, como é que tu não tem um kwai? Faz pelo menos um canal no youtube. Vai monetizar bonito, o povo gosta de coisa estranha!”. Ao passo que uma das panfleteiras pediu seu apoio: “Bota você, que eu tenho medo de pinicar ele!”. Relaxa, eu confio em você. Aos risos, ela contrapôs: “Parabéns! Eu não confio!”. Nas últimas esquinas do Calçadão da XV, uma panfleteira me revelou: “Você faz isso para que as pessoas te vejam, né?”. Na sequência, duas vendedoras se aproximaram. Pensei que trariam panfletos, mas queriam fotografar o anúncio de procedimento estético labial esvoaçando no meu ombro. Interessadas pela garantia de preenchimento grátis em troca da liberação de imagem para divulgações, começaram a analisar suas bocas, testas, narizes e maçãs do rosto. Uma delas, retocando o gloss, disse: “semana que vem vou para a terceira sessão do meu lábio”. A outra deu uma averiguada meu rosto: “Você nunca pensou em tirar essas marcas de expressão da sua testa e do seu sorriso?”. Na sequência, um senhor me persignou sucessivamente: “Vem cá, panfleteiro abençoado! Vou colocar nas suas costas, abençoado! Não vai cobrir nenhum, fica tranquilo, abençoado! Cadê o alfinete, abençoado? Eu vou colocar na camisa, para não ter risco de furar sua carne, abençoado! Se cuida, você é um abençoado!”.
Dobrando na Avenida Marechal em direção à Praça Rui Barbosa, fui atraído por um sorriso que preenchia toda a esquina. “Eu vou colocar o meu panfleto, mas se eu pudesse pendurava na sua roupa aquele meu amigo ali, lá no café, tá vendo? Ele me dá um trabalho...”. Meu nome é Elilson, e o seu? “Diferente que nem o meu: Adelir”. Olha, você é a primeira Adelir que encontro na vida. “Eu só conheci outra pessoa na minha vida”, ela disse. Ah, é, quem? “O padre dos balões! Ontem bateu uma ventania tão forte aqui, meu filho, faltou luz, fechou loja... Eu me segurei nessa parede para não ser levada pelo padre. Vai que ele acha que eu sou a Júnia dele?”. Então me despedi: Pois eu vou lá voar com meus panfletos! “Que panfleto que nada, você vai de foguete”. É? “Você é a cara do carimbador maluco do Raul!”. Rente aos nossos ouvidos, uma senhora aconselhava alguém pelo telefone: “Poder é ser quem você é”. Adelir, então, me despachou soprando vento e gesticulando asas com as mãos. Posso ganhar um panfleto da farmácia? À porta do estabelecimento, Jairo se retraiu, confessando que não sabia se o gerente iria gostar. Este, contudo, já estava sorrindo em minha direção. Pode, sim, olha lá ele, já é meu amigo! Onde vai ser? “No braço, né? Pra combinar com nosso ramo!”. Seguindo o fluxo à Praça Rui Barbosa, uma senhora brincou com os anúncios em meu corpo: “Eita, que tá cheio de dinheiro, hein?”. Outras duas me chamaram: “Ei, moço, tá faltando só o nosso ouro!”. “Ai, que legal. Ai, que ótimo. Ai, que massa!”, tri-exclamou uma delas. Olha, aqui também se fala massa?! “De onde você é?”. Eu sou de Recife. Sua amiga então arrematou: “Claro que é de lá de cima, pra ser assim, desinibido. Ninguém daqui faria isso!”. Olha que eu conheço um monte de curitibano soltinho! Logo em seguida, Seu Antônio se aproximou: “Tá cheio de ouro aí, hein?” Tô, mas falta o seu. “Mas já tem um igual ao meu aí”. Mas não é o seu. Ele apontou para minha perna. Foi então que notei três pares de alfinetes vazios; os panfletos caíram que eu nem percebi. “Não brinca com o vento”. Quando terminamos de nos abraçar, abri os olhos e já flagrei Roseli e Maria ganhando pulseiras de ouro de um rapaz. Olha aí, ganharam presentes! “Sempre, meu filho. Porque a gente não tem tristeza, a gente não tem maldade, a gente só entrega e não obriga ninguém a pegar. Todo mundo gosta da gente”. Coreograficamente limparam as câmeras de seus celulares e decidiram qual seria o melhor para registrar o nosso encontro. “Quando passar por aqui, fale com a gente de novo!”. Com certeza.
Na sequência, outra dupla. Sandra me perguntou: “Isso é pro TikTok?”. “É que você tem cara de TikTok”, explicou Zenaide. O que isso quer dizer? “É coisa boa e bonita, pode confiar. Mas qual a sua pira? Você joga a roupa assim mesmo depois na máquina?”. Expliquei que era a sétima vez que eu fazia a ação, e que as roupas permanecem assim. “Eita, que os panfletos vão durar mais que você!”, previu. Alguns passos adiante, uma carioca, que segurava óculos de sol vermelhos e gigantes nas mãos – o mascote da Ótica Instituto – me chamou: “Menino, arrasou! Olha, arrasou!”. Me mostrando para a sua amiga, já foi colocando seu panfleto colorido. “Esse é diferenciado, tem o meu nome escrito atrás: Scarlet!”. Olha, teu nome também é diferenciado. “O da filha dela é mais ainda”, revelou a amiga. “Rihanna!”. Dessa vez, eu que disse: ARRASOU! É em homenagem à cantora? “Não, eu queria um nome forte. O pai queria Ana Vitória, mas achei um nome muito água com salsicha”. Sua amiga, grávida de 4 meses, revelou que ela e o marido estão num impasse: ele quer homenagear o melhor amigo, Bryan. Ela, o avô, Bento. Eu e Scarlet votamos em Bento. “Homenagear é uma coisa linda, eu queria ser neta desse avô!”, justificou Scarlet, orientando que ela acompanhe o marido no cartório. Partilhei então a história de meu nome, registrado exclusivamente pelo meu pai e sem a anuência de minha mãe. “Qual teu nome?”, perguntou a mãe de Bento. Elilson. “Nossa!”. Porra, me humilhou. “Mas de onde saiu?”. Eu me chamaria Eduardo Henrique, mas meu pai achou muito batido, daí combinou seu nome com o de minha mãe: Eliane + Edmilson = Elilson. “Ninguém pode negar que ele foi criativo!”, uma delas expressou. Nosso papo se estendeu por mais quinze minutos: signos, parto normal, cesarianas, pressão alta e pressão baixa, até que me despedi. Tudo de bom para vocês, para Rihanna e para Bento. “Ih, arrasou, amiga, ele já batizou de Bento. Ouve ele, ele é o padre dos anúncios”.
“Ei! Não tem os nossos!”, correram em minha direção duas amigas, conferindo os nomes dos panfleteiros atrás dos anúncios das óticas concorrentes. Uma delas, que pediu para tirar uma foto minha de corpo inteiro, tinha os nomes dos filhos tatuados nas costas dentro de um coração: Tales, Thais e Taylor. Sua amiga exclamou: “Eu nunca tinha visto um homem desse! O Super Marketing!”. “Eu também não, minha filha”, falou Dona Jane, me presenteando com um calendário. “Eu sou cliente daquela loja lá de aviamentos, tá vendo? Eu e o dono ficamos encantados quando você passou!”. Uma das funcionárias veio correndo: “Seu Mofid, meu patrão, está te chamando. Quer tirar uma foto e mandou este alfinete, é pra você botar o calendário na roupa”. Mas esse aí vai me matar, eu brinquei, me referindo à tachinha pontiaguda para quadro de feltro. Chegando lá, todo orgulhoso de seu rosto no calendário, Sr. Mofid pediu que eu acenasse para suas fotos. Jane, sua cliente, me disse: “Você terá muita sorte na vida! Cada panfleto desse representa as sortes das pessoas, porque todo mundo está apostando em algo. A nossa sorte faz sorte para os outros; continue carregando tudo em você”. Emocionado, não consegui responder nada além de tchau e obrigado. Mofid, que em árabe significa benéfico, se despediu: “Salamaleikum!”. Ao longo daquela rua, uma das transversais entre a Marechal e a Praça General Osório, olhei para trás cinco vezes; em todas elas, Mofid aumentou a altura da mão gradativamente, garantindo que eu não deixasse de ver o seu aceno.
Ao retornar para a extensão do Calçadão da XV e finalizar a ação, me deparei com uma roda gigante. Driblei a longa fila de pessoas, sorteios de perfumes, uma reportagem ao vivo... e entre farmácias, livrarias e bancos de crediário, lidei com a escassez de panfletos. Rente à placa em homenagem a Gilda, um cantor de rua gospel apontou para mim e entoou: “Me lembro que sou peregrino, ainda não cheguei em casa”. Reencontrei o Palhaço Pipoquinha, que partilhou ter contado sobre meu trabalho para todo mundo; e também Vilmara, que persistiu: “Meu Deus, aumentou a quantidade, agora tá todo lotado. Eu nunca vi uma coisa assim! Por que você está fazendo isso? Você é, ó” (gesto de loucura ao lado da cabeça). Uma senhora me perguntou: “Já estás a quantas horas fazendo isso?”. Mais que quatro. “Você deveria ficar assim na Rua 24 horas!”. Um trio de panfleteiros se aproximou: “Chegou o nosso divulgador!”. Um deles anunciou: “Peraí, que eu vou caprichar e fazer um bagui diferenciado”. Ao retornar de uma loja, completou: “Agora quero ver quem é que não vai me notar!”. Ele grampeou uma tira de cartões com seu nome, formando uma cascata monotemática a partir de meu ombro. Antes de retornar ao MUPA, parei novamente no Armarinho onde Rosa me vendeu os alfinetes. “Ah, era pra isso!”, compreendeu a atendente do caixa. Informando que Rosa não poderia me atender naquele momento, finalmente me presenteou com o cartão, que passou a cintilar na bainha do meu pulso. Um dos trabalhadores da loja soltou uma entonação de locutor: “Está de volta o Homem-Folheto, o top dos panfletos!”. Uma criança indagou para a mãe: “Meu Jesus amado, o homem está vestido com papel?!”. O locutor sem amplificador, aconselhando que eu me apressasse para a chuva não arruinar minha andança, me entregou uma xérox de panfleto manuscrito com os cursos de crochê oferecidos pela loja. Por fim, professou: “Parabéns pelo talento – isso aí não deixa de ser um talento, né? Siga de olhos fechados para as críticas positivas e negativas. Só vai, irmãozinho!”. Agradecendo pelas palavras e vendo em seu rosto um trailer de toda gente que eu havia conhecido e de tudo que eu havia apr(e)endido naquele dia, eu fui. Eu vim. Eu sigo.
Elilson


