500 Braças
A exposição 500 Braças apresenta ao público do Museu Paranaense a produção da Irmandade Vilanismo, coletivo de artistas cujas práticas articulam criação artística, experiência territorial e construção coletiva. Ao tensionar as fronteiras entre dentro e fora do Museu, a mostra expande seus limites físicos e simbólicos por meio do Cortejo Negro realizado no dia de sua abertura: um deslocamento coletivo que percorre as ruas de Curitiba como gesto de reconhecimento das presenças, memórias e heranças africanas que constituem a cidade, ainda que historicamente invisibilizadas.
O ano de 2026 marca os 150 anos de fundação do Museu Paranaense, instituição que se mantém em permanente processo de reflexão sobre seu papel na sociedade e sobre as narrativas que ajuda a construir. Ao longo dessa trajetória, o MUPA vem buscando estabelecer novas relações entre passado e presente por meio de diálogos, cruzamentos e aproximações entre diferentes campos de conhecimento, práticas culturais e territórios. Nesse contexto, a realização da mostra integra um conjunto de ações voltadas à ampliação dos debates e interlocuções que atravessam o museu e sua atuação contemporânea.
Ao ressignificar o conceito de 500 braças, medida fundiária instituída pela Lei de Terras de 1850, e historicamente associada a mecanismos de exclusão de populações negras e indígenas, a Irmandade Vilanismo transforma esse dispositivo em matéria poética e política. Desenvolvida em diálogo com o Centro Experimental de Arte Serigráfica/Caderno Listrado, a exposição converte uma medida concebida para delimitar e separar em um mecanismo de aproximação e construção coletiva: braços que se somam para imaginar e sustentar novos territórios de existência e possibilidade.
MUSEU PARANAENSE
Em 2022, enquanto o Brasil celebrava o bicentenário da Independência e o centenário da Semana de Arte Moderna, jovens artistas negros da região metropolitana de São Paulo articulavam um contramovimento, tomando a narrativa oficial da nação como contraponto para imaginar outros horizontes políticos, históricos e afetivos. Assim nascia uma irmandade artística cujo nome, em alusão aos muitos “ismos” que atravessam nossa história colonial e cultural, seria VILANISMO.
Em outubro daquele ano, marco dos trinta anos do Massacre do Carandiru, os artistas lançaram seu contra-manifesto. Em reverência à memória das vítimas da violência de Estado, afirmavam: “Sobre (vivemos) o inferno que é o projeto chamado Brasil, mensuramos sua postura no olhar e vemos seu coração pesar com a culpa de seus privilégios”. Enquanto a memória dos artistas burgueses que em 1922 imaginaram protagonizar uma “revolução estética” entrincheirados nos salões do Theatro Municipal era novamente heroicizada, os manos provocativamente se anunciavam como “VILÕES, Crias, Pivetes. Somos todos classificados ainda pela Lei da Vadiagem”. Ao fazê-lo, constrangiam o Brasil a encarar seu próprio avesso no antagonista espelho do VILANISMO: um contragolpe simbólico que desafiava a oficialidade nacionalista com a perspectiva daqueles que a pátria historicamente expropriou, criminalizou e exterminou.
Criados na ginga, os vilões tampouco se aprisionaram no imaginário de vilania que evocavam. Onde se poderia esperar uma política fundada na revolta, fizeram emergir uma ética do afeto, do cuidado e da solidariedade. Unidos pela experiência compartilhada de serem homens, artistas, negros e periféricos, construíram uma irmandade dedicada tanto ao fortalecimento de lutas coletivas quanto à reinvenção das masculinidades contemporâneas. Por meio de exposições, residências, oficinas, publicações e ações públicas, o VILANISMO consolidou uma prática em que o amor se afirma como força revolucionária.
Agora em parceria com o ateliê de gravura Caderno Listrado, a irmandade ocupa o MUPA com a residência-exposição 500 BRAÇAS. O título do projeto remete à medida territorial utilizada pela Lei de Terras de 1850 para organizar a mercantilização do território brasileiro, consolidando um regime fundiário que inviabilizou qualquer redistribuição significativa após a abolição da escravidão. Ao mobilizar as tais braças, os artistas evidenciam um dos eixos centrais de sua atuação: o direito à terra.
Criados em favelas e periferias, os vilões conhecem os efeitos concretos da concentração fundiária brasileira. Diante da reparação nunca realizada no pós-abolição, transformam sua prática artística em instrumento de reivindicação, organizando-se em torno de uma demanda que já nasce histórica: a conquista de um chão-ateliê coletivo capaz de abrigar seus trabalhos, encontros e futuros.
O projeto se expande pelas galerias e pelo jardim do museu, onde se instala a intervenção inédita Eu sou um homem. Reunindo obras de Ayọ̀kàndé, Carinhoso, Denis Moreira, Diego Crux, Guto Oca, Rafa Black, Ramo, Renan Teles, Robson Marques e Rodrigo Zaim, 500 BRAÇAS constitui também um novo gesto de CuradoTRETA, a reapropriação dos regimes da curadoria para hackear institucionalidades e discursos de poder. Organizada em três núcleos — Mutirão, Mente do Vilão e Você me deve —, a exposição se estende à mostra permanente do museu, onde trabalhos dos artistas realizam uma leitura a contrapelo da narrativa institucional, colocando em atrito memória, crítica histórica e imaginação política.
Num contexto marcado pelo avanço do fascismo e seu ódio, o VILANISMO insiste na irmandade. Sua atuação não se limita à denúncia da violência, mas investe na construção de vínculos sensíveis e políticos entre sujeitos historicamente marginalizados e seus aliados. Ao afirmar o encontro, o cuidado e a partilha como tecnologias de existência, a irmandade habita as artes como território de regeneração coletiva diante da ameaça do colapso. Afinal, como já sintetizava seu contra-manifesto: “O risco nos une”.
CLARISSA DINIZ


