Nosso estado: Vento e/em Movimento

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A partir de 14 de junho de 2022

Mostra de longa duração localizada no Anexo

 

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Nosso estado: Vento e/em Movimento é uma exposição de longa duração formada por dois eixos intitulados Deslocamentos por dentro e Deslocamentos pela margem que se subdividem em 5 núcleos cada. O primeiro eixo propõe um mergulho na história de algumas das diversas comunidades que formaram o Estado do Paraná, desde migrantes relacionados aos deslocamentos históricos e contemporâneos,  abarcando também experiências vinculadas a exílios indígenas (como o emblemático caso da etnia Xetá) e comunidades quilombolas. Já o eixo Deslocamentos pela margem é dedicado à cultura caiçara. Nele o visitante é convidado a conhecer a complexidade da experiência coletiva das comunidades caiçaras do litoral paranaense por meio de sua musicalidade, religiosidade, sensibilidade e relação com seu território.

O conjunto expositivo conta com as histórias de Danuta, Cecília, Polferia, Heinz, Edson, Rony, Claudemir, Ayla, Fouad, Silmara, Denise, Rubens, Poro, Aorelio, Jairo, João Pires, Isolina, Leonildo, Zeca da Rabeca, Renato, Rose e Janguinho, além de aproximadamente 100 objetos do acervo histórico, antropológico e arqueológico do MUPA. 

Os registros audiovisuais presentes na exposição (depoimentos, cenas de paisagens e fazeres artesanais) foram gravados em 2021, em diferentes locais do Paraná. Todas as gravações hoje passam a integrar o acervo documental do Museu Paranaense, ampliando a diversidade de vozes e expressões populares e tradicionais desta instituição de 145 anos de existência. 

 

Curadoria de Felipe Vilas Bôas, Giselle de Moraes, Josieli Spenassatto e Richard Romanini.

 

Exposição Nosso estado_Foto paisagem
Exposição Nosso estado_Foto Rony
Exposição Nosso estado_Foto fazer artesanal Edson

 

Exposição Nosso estado_Foto depoimento Isolina

 

Exposição Nosso estado_Foto Leonildo

 

Exposição Nosso estado_Frame video Kozák Senhorinha Romão

 


Eixo Deslocamentos por dentro

Foi em 1829 que os primeiros imigrantes fizeram morada no Paraná, ali em Rio Negro. Em 1853, a emancipação foi um marco. Já que o Paraná não dispunha de grandes eixos econômicos atrativos, a política inicial de atração de imigrantes foi a adoção da pequena escala, destinada ao alargamento da fronteira por meio de uma ocupação definitiva. Os atores dessa etapa foram os grupos que se destinavam à agricultura de subsistência e pequenos ofícios mecânicos.

No final do século XIX e início do século XX, as levas mais expressivas de pessoas povoaram o Estado. Em 1911, o Paraná registrava cerca de 100 comunidades coloniais de origem estrangeira diversa. Hoje, a busca pela integração em conjunto com a refutação de percepções culturais equivocadas é comum a todas as etnias, mas nem sempre as lentes foram as mesmas.

As intenções governamentais, durante a Monarquia e a República, tiveram discursos ambíguos: a imigração era a oportunidade de ocupação de um suposto vazio demográfico e consequente alargamento das fronteiras, mas também escondia um projeto de branqueamento fenotípico e cultural na construção dessa nova sociedade. Não à toa, em 1937, as escolas étnicas foram proibidas de funcionar. Manifestações linguísticas e culturais se restringiram, então, à igreja. Na Colônia Lucena, pertencente a uma Itaiópolis ainda paranaense na época, Cecilia ouvia a Hora Polonesa no rádio do fusquinha do pai.  

Filha de sobreviventes da guerra, uma cantora de ópera e um combatente, Danuta, imigrante da Polônia e integrante do primeiro grupo de balé e folclore polonês do Paraná, viu no Brasil um alento. Para sua família, o Brasil era terra de leite, de maravilhas, com o risco de se encontrar, aqui, cobras e onças, nada que os fizesse recuar. 

Quem se desloca se movimenta e age por conta, ora como brisa leve e orientada, ora como vento forte em meio à tempestade. Sujeitos deslocados com suas próprias intenções muito além da propaganda do Estado, entre aceitação e repúdio, construíram suas próprias trajetórias e ainda hoje lutam pela manutenção de seu bem mais autêntico: a memória coletiva de quem são os seus.

 

Terra farta e produtiva. Possibilidade de compor um projeto nascente. Na chegada, fauna e flora peculiares e uma terra em disputa. A partida não foi fácil para quem saiu da Europa e da Ásia no final do século XIX, tampouco para quem chegou na segunda metade do século XX. Desembarcar nos portos brasileiros foi uma experiência abruptamente diferente da propaganda que fez imigrantes decidirem por vir.

O vazio demográfico descrito era o oposto do que se via na junção de alemães, indígenas, japoneses, libertos e escravizados. Complexo para quem já deixava para trás perseguições religiosas, caçadas étnicas que já tinham catalisado o trânsito territorial dentro de seus próprios continentes. Mesmo a reformulação da mão de obra já havia levado pra lá e pra cá ucranianos, poloneses e rutenos tentando se adaptar à inescapável industrialização do final do século XIX.

No século XX, a transição das velhas para as novas características na ocupação do cenário agrícola continuou e o fim da Segunda Guerra Mundial trouxe menonitas e holandeses para o segundo planalto paranaense. Em 1958, foi a vez dos sino-russos. O apoio da ONU na chegada não impediu a precariedade das primeiras instalações. A Colônia Santa Cruz é fruto das primeiras reivindicações pelo real direito à terra de quem largou a sua por uma promessa. Promessa que chegou aos ouvidos da família de Polferia, bordadeira de Santa Cruz, filha de imigrantes, hoje, montadora de bastidores para ponto cruz e ponto russo para quem a encontra pelas mídias sociais. A mesma promessa que fisgou os avós de Heinz e os trouxe para experimentar tudo que a terra de Witmarsum poderia dar – de alimento para algumas vacas, ordenhadas com equipamentos financiados pelo Banco do Brasil, a alguns milhares de pés de morango.

Ainda que esses grupos tenham cercado um espaço para chamar de seu, as populações deslocadas não estavam isoladas em seus bastiões. A experiência na Colônia Santa Cruz revela justamente esse aspecto do contato com quem ocupava o dito vazio demográfico, sem reprodução de narrativas dadas. Entre diferenças e quereres, negociações e conflitos, quilombolas remanescentes da escravidão e a comunidade sino-russa criaram laços que permitiram trocas comerciais e sociais entre elas.

A tonalidade da terra sem neve, que já foi espaço para produzir tudo que se consumia acompanhou as nuances dos tempos e tornou-se então essa plataforma de laços comerciais, sociais e afetivos entre as populações que fincaram pé aqui: a troca como ferramenta de sobrevivência para pessoas que sabem reconhecer quando a terra é fraca e se tornaram especialistas em testar tudo o que ela dá para fazer dela o próprio chão.

 

O vento do leste também empurrou os imigrantes para outras bordas do Paraná. Se a construção da Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá foi o meio para que os imigrantes adquirissem fundos, Curitiba foi palco para que alemães, italianos, sírio-libaneses, portugueses e libertos começassem a manusear os primeiros livros contábeis. À frente do setor metalúrgico e do vestuário, alemães, atrás dos balcões do comércio, sírio-libaneses e portugueses. O alimento era por conta dos italianos. Tudo isso pavimentado por obreiros mestres no calçamento, entre libertos e escravizados, assegurando a urbanização da cidade.

A madeira, o couro, a pedra e o ferro serviram aos ofícios que emergiam na província, enquanto o litoral ia ficando apertado para o contingente de imigrantes que buscavam oportunidades comerciais. Como uma monção, esses artífices e negociantes se espalharam por vilas e cidades, rompendo a muralha da Serra do Mar e marcando sua presença em regiões que ainda não tinham o que a província proporcionava. Grupos de japoneses que haviam lançado mão de sementes e enxadas abandonaram o ambiente rural e buscaram as cidades para abrir comércios e exercer ofícios mecânicos. No contato, na experiência e nas trocas culturais, a atividade comercial prosperou ao mesmo tempo em que semeou características de seus lugares de origem no gesto e na postura.

Onças, urutus-cruzeiro e outras cobras venenosas eram presença no Norte Pioneiro de Edson e foram alvo de lanças fabricadas nas tradições japonesas de forja de katana, resquício de um passado sagrado samurai. Da modelagem da lâmina na forja até a montagem das lanças que hoje são objetos de coleções, o desbaste, a têmpera, o polimento e a afiação não são só técnica, mas também espiritualidade. Conexão direta com quem manipulou as primeiras barras de aço, agraciados pelo kamikaze, em japonês, vento divino que ocupava a mente de quem ia para o combate, qualquer que fosse, mas nunca sem antes pedir licença aos ancestrais.

 

A sintaxe que ziguezagueia entre o singular e o coletivo na vida contada por estas falas suaviza o baque do trajeto. Constatar que a prosódia se veste de maneira diferente a depender de onde vem a voz é ponto pacífico, mas tensões e conflitos causados por sotaques – e não só – não ficaram no passado.

Entre o estranho e o familiar, o Paraná finca pés e raízes no único país falante de língua brasileira na América Latina. No século XXI, tornou-se espaço de aproximadamente trezentos mil imigrantes, migrantes e refugiados – deslocados com vontades diversas, mas necessidades em comum: consolidar seu espaço social e constituir suas famílias. Regressar ao território de origem nem sempre é uma opção. Às vezes, não se pensava em sair de lá, seja lá o Haiti ou a Venezuela, seja lá um aqui tão perto, tão longe, o último refúgio da comunidade indígena Xetá. 

Haitianos, venezuelanos, populações indígenas exiladas de suas terras têm no agrupamento um antídoto contra a saudade, a palavra que logo de cara se aprende em terras outras. Associações coletivas, espaços de culto religioso, comunidades onde memória, identidade e cultura viram dicionário para o entendimento dos novos discursos e deste outro contexto plural.

O choque da língua, o choque da cultura, o choque da ignorância. O anfitrião nem sempre amistoso no cumprimento encontra pessoas como a Ayla, que quase perdeu um voo e demorou cinco dias para dormir tranquila, ou o Rony, que fez um trajeto de oito dias entre países que separam o Haiti do Brasil e encarou o trajeto Acre-Curitiba sabendo que a vida que está acontecendo aqui tem outra história. Em sua própria terra, Claudemir forjou-se em outros exílios e silêncios, entre o ir e o voltar para a mata, presenciou um encontro entre os seus, tão perto e incomunicáveis, que demorou 45 anos para acontecer.

Eles e ela não procuram mais a tradução literal ou as palavras iguais no território de agora. Sabem bem que a língua é sua maior herança. Nas suas palavras, o que ficou para trás desafia o tempo linear e a noção de pertencimento: seus filhos são o símbolo de que a vida de quem perdeu quase tudo também pode ser daqui para a frente e, a despeito das barreiras do presente e da imprecisão do passado, a palavra futuro segue na ponta das línguas.

 

O Paraná é formado por gente, que, nas entrelinhas das palavras de Helena Kolody, não sabe dizer por que, muitas vezes, sente uma saudade singular da estepe que não viu. De cá, nossas araucárias – e não só – são parte do cenário de uma memória coletiva que simboliza uma redescoberta do que se é, do que se deseja ser. As identidades não são fixas. A nossa identidade não é fixa. Os povos que se deslocaram por aqui, por trânsitos internos e externos ao Brasil, se viram em um espaço construído por contato e por afastamento, por memória e por esquecimento, porque sim e por que não?

Foi dessa dança que coreografou diferentes bagagens culturais, distintas visões de mundo e múltiplas origens que surgiu um povo que se movimenta por terra: sujeitos sociais forjados por uma rede de trocas culturais intensas e forjantes da transformação que trouxe o Paraná até este tempo-espaço de hoje: o seu e o nosso aqui e agora. Os deslocamentos – forçados ou voluntários – não se limitaram e limitam a funções ou anseios, mas implicam em experiências sociais complexas e de longa duração. De um longo ontem em processo de acontecimento em contato com o outro.

Um processo costurado, nas memórias de Denise, Fouad e Silmara, e de tantos judeus, libaneses e quilombolas representados por eles, pelos ecos de uma despedida com lenço na mão, alguns nós de distância do descolamento da margem, pela obstinação em preservar uma história que ainda dói muito, pela herança de uma comunidade que vive aqui com o coração lá. Como resultado, uma solidão que, aqui, na América Latina, precisa ser comunicada em português – ou melhor, em brasileiro. Da memória afetiva gastronômica imediatamente acessada pelo olfato a uma sensação perene de que não se reza sozinho, cada um aqui sente o amargo e o doce sem precisar ativar papilas gustativas, tudo dado pela diferença, pelo que não se é. Para além de definir o que é, a matéria da qual é feita a identidade está posta – na mão e no coração de cada povo.

A identidade é feita de movimento. Contra e apesar do vento, alegrias, angústias, línguas, posturas, comidas, vestimentas, crenças, plantas e ofícios se propagam como sementes e provocam tempestades. Mas também sobrevivem a elas. Por isso, você está aqui.

 


Eixo Deslocamentos pela margem

 

A vida é uma tarefa. E não diga que não para alguém que nasceu caiçara e aprendeu a viver em movimento. A partir daqui, há pouco a explicar, muito a experimentar. Se a terra se move, por que quem vive nela ficaria parado? A Barra do Ararapira é o chão do qual não se escapa: um banco de areia que divide o mar de fora, o Oceano Atlântico, do mar de dentro, os rios, os nossos, os seus. Uma barra que é migradora – e qual não é? Quem vive aqui co-habita um ambiente pulsante, um lugar que já mudou muito de lugar, um ecossistema que junta passado, presente e futuro, velho e novo – e tem vida própria.

Materiais e histórias compõem sentido para a lavradora, para a pescadora, para a artesã, o que significa que o que se ouve, transmitido via oralidade, vira material visível para quem foi treinado na percepção sensorial caiçara. Palavras não são a única matéria-prima de discursos aparentemente silenciosos para quem não está atento aos sinais. E quem está: distingue na nuvem, percebe na maré ou se guia pelo som do mar.

Ao mínimo assovio diferente do vento, caiçaras adaptam o dia, é também no engajamento prático que o cotidiano se faz. Ajusta-se a biruta e o chão pode ser outro. A vida acontece na sua frente e é preciso honrar isso, ainda que, abaixo desse mesmo chão, um tatu possa causar um desmoronamento. O manejo da natureza por quem reverencia a mata não depende de atenção às convenções civis. Sua civilização está engendrada no que não se vê, no que não se ouve. Quem não sabe disso é porque não ouviu os mestres. Foram eles que ensinaram Renato a prestar atenção ao silêncio. E porque ele prestou atenção a isso, sabe que a vida pode ser boa, a mesma vidinha que deus deu para Rubens, ele agradece, nada diferente daquela que Edna, Shirley, Leidiana, Janice, Iraí, Patrícia e Rose consagram ao entrar na mata em busca de cataia só e somente só depois de uma oração – em voz alta ou não.

Apropriar-se do vento, fazer dele uma ferramenta, não desafiar o canto da Urutágua e marcar as árvores para não se perder no labirinto: tudo é mandamento sem validade desde quando se fazia vela com o fígado do cação ou com a banha da tainha. A luz elétrica não conforma o viver caiçara, tampouco alguma falta de cultura letrada impede que Agostinho, que mora ali na Laranjeiras, faça um poema. Não é porque não está escrito que não se saiba que sua herança é o mar. Um respeito profundo pelas forças da paisagem é o pontapé para entender as políticas caiçaras: territórios que moldam e são moldados, mutuamente, por uma gente compromissada com as regras de manutenção da própria vida, sua realização produtiva mais importante.

 

Corpos pescadores conhecem as artimanhas de viver sobre as águas, mas a prática da natureza do mar não deixa esquecer a importância dos outros elementos: a terra, que abriga a família na ausência de quem pesca; o vento, que sussurra sobre a presença dos peixes, e o fogo, que mantinha o lampião aceso e ainda hoje transforma o pescado em alimento. A comunicação entranhada no gesto obedece devotamente à direção do vento. Com vento sul, o mar engrossa, o sopro é forte, nada de pesca. Com vento leste, o peixe entra todinho barra adentro, para ser pego de rede, de cerco, de lance.

O mar é coisa viva. E é preciso ter medo dele. Todos os dias. Dia sim, dia não, a pescaria acontece. A rotina de quem sai porque precisa nem sempre permite grandes acontecimentos inusitados – a maioria das histórias de pescador tem a ver com a repetição do cotidiano. É mais certo voltar com pouco ou quase nada. O peixe conhece quem pesca como quem pesca conhece o peixe: e um sente o outro. Se quem pesca conhece o comportamento de cada espécie, o peixe também sabe como e quando fugir da rede. E é geralmente o peixe que leva vantagem. Quando acontece de não ter peixe, diz-se que não dá nem vontade de cantar. Ainda assim, o que manda é o respeito que se tem pela vida no mar. Os animais são e têm família – e não se mata filhote, é capturar e devolver.

João foi desses peixes devolvidos ainda filhotes, os pais morreram afogados na época em que se fazia sapo e o pagamento ao fim do dia era comida e fandango. A pesca no rio e no mar acontece quando a maré tá de bom tema. Isolina também é de quando a rede era de arrasto. A morte precoce dos irmãos a fez companhia permanente do pai nas descidas do rio à noite. Um dia de pesca, outro de palmito. Um dia de bagre assado com um pouco de farinha, outro de folha de caitê na beira da cachoeira. Os trocos que se ganhava serviam para comprar arroz e outros mantimentos em Vila Fátima. Matar peixe, unanimidade nos depoimentos, era mais fácil quando a pesca industrial predatória não afetava tanto o fluxo dos rios e mares ao redor. 

Hoje, mulheres e homens com corpos que leem água, vento, terra e fogo, faça chuva ou faça sol, sabem que o mesmo vento sul, que não permite pescar, acompanha os bons peixes que vêm de lá, a favor da água. Sabem também que debulhar os camarões, limpar e salgar os peixes são tão importantes para a cadeia da pesca quanto jogar a rede, puxar a rede, jogar a tarrafa, cair na água e nadar pra pegar embarcação. Etapas de um processo que exige muitas mãos e braços, corpos caiçaras que pegam peixes e dão o lanço da canoa. Os mesmos braços com que se medem as redes feitas à mão e nos quais estão visíveis as marcas desta vida ao ar livre, dia sim, dia também, cuidam da natureza para que o mar esteja sempre para peixe.

 

A casa é a igreja. A família é o altar. A voz de Aorelio é mais uma das que diz que tem fé naquilo que carrega. E é extenso o conjunto caiçara dos modos de ter fé – a romaria, o mais famoso deles. Durante cinquenta dias, do domingo de Páscoa até o domingo de Pentecostes, de casa em casa, das seis da manhã às seis da tarde, visitas levam alegria e abraços a quem abre as portas para a Romaria do Divino.

Os símbolos são familiares: a primeira bandeira, vermelha, que alude ao fogo, como lembrete da forma pela qual o Espírito Santo se manifestou aos apóstolos e à Virgem Maria no cenáculo; a bandeira branca, alusão às três pessoas co-substanciais que definem o deus na doutrina cristã da Trindade: deus Pai, deus Filho e deus Espírito Santo, bandeiras que hoje, com a morte dos mestres mais antigos, andam juntas. Há também a pomba esculpida no topo dos mastros, representação do Divino, pousada sobre uma esfera de arame toda enfeitada com flores, a cachopa. Nela, penduram-se bilhetes, cédulas de dinheiro, fotos e objetos que sinalizam promessas e agradecimentos. As fitas coloridas atadas à base da cachopa também carregam mensagens escritas à caneta pelo próprio devoto. Medidas e cortadas na altura de quem tem fé, é como se devotos e devotas fossem, os próprios, atados à bandeira.

No seu encalço, mestre, rabequista, tipe, caixeiro e alferes entoam toques e cantos de um ritual que comove toda a gente. Comove o Aorelio, que começou como segunda voz de João Busa e tem iniciado mestres de Romaria, como se passasse um bastão; comove o Jairo, neto de um folião de bandeira que ia de canoa à remo para ficar quarenta dias fora de casa; comove o Poro, que acredita que fé não precisa de autorização e sente diferente a musicalidade de Guaratuba. Comove até quem ainda não tem as chaves para abrir as portas de significados possíveis quando a bênção se faz.

Alvorada, Chegada, Despedida e Beijamento – quatro etapas de um dia muito esperado. Ao som de quadras com sete ou oito fonemas improvisados e rimados em linhas alternadas, ou no mais profundo silêncio que fica depois que os foliões vão embora, a fé é a força caiçara que coloca em suspenso acontecimentos cotidianos para orientar a atenção para sentidos daquilo que os faz existir.

 

Caiçaras são fandangueiros desde crianças. Os sinais estão entranhados na experiência. E tudo é visceral porque foi internalizado de ouvido, foi aprendido na marra, virou parte de um engajamento da atenção, algo que não ocorria por instrução sistematizada dos saberes, mas por meio de uma percepção aguda dos objetos e das pessoas, do ambiente e do tempo.

Um dos principais fundamentos técnicos e afetivos do Fandango é a construção artesanal dos instrumentos musicais. Seus regimes de aprendizado passam pela observação do fabriqueiro do instrumento, não porque fosse uma obrigação, mas porque o acontecimento todo fazia parte de um modo vivente que favorecia a curiosidade da criança que nasce num território alicerçado na musicalidade. As figuras de um litoral do Paraná fazedor e musical foram inspiração de berço para crianças que levaram adiante o fôlego dos mais velhos. O fôlego da festa, regada a ensopado de peixe, barreado e aguardente. E o fôlego da música, porque mestres artesãos deram forma a violas, machetes, rabecas, caixas e adufos. 

E tudo vem da ideia, ou da memória coletiva territorializada de um povo que ia espiando e aprendendo. No passado, a festa feita como “paga” pelo trabalho comunitário em um determinado espaço – os chamados mutirões, trabalhos que duravam um dia inteiro, ou sapos, meio período de lida, que aconteciam em roçadas, derrubadas, varações de canoa ou cavações. Essas manifestações festivas migraram para a direção dos casamentos, das festas religiosas e de outros eventos comemorativos e se afastaram dos domínios produtivos associados à mata e às águas. 

Leonildo, aprendiz autodidata de rabeca, sabe que não é tão fácil, mas é fácil pra quem sabe fazer. Sabe também que a história do fandango é pesada, mas é bonita de ver. Zeca da Rabeca leva o nome do instrumento no apelido, mas gosta mesmo é de viola e lembra do tempo em que ninguém ensinava, muito menos deixava pegar no instrumento para que ele não desafinasse. Ele, afinador e professor, sabe que a observação do dedo de quem toca já não é mais suficiente, nem o bom ouvido. Na batida dos tamancos, com a dança das mulheres e voz dos cantores, o fandango caiçara foi assim se desenhando de um jeito muito particular, mas nunca passou despercebido aos ouvidos da terra e nunca esteve fora da rota. Aorelio é representante de uma geração que se sentiu importante ao lado daqueles mestres tocadores e, no dever de revelar uma tradição, encontrou as notas que embalam uma vida dedicada ao fandango. Ele vê na vida fandangueira a marca registrada de uma identidade cultural que assegura territórios e bate numa tecla também política: uma manifestação cultural tem o poder de assegurar direitos. E lembrar disso tem sido dever de quem não vive sem essa trilha sonora.

 

As mãos de mestres e mestras de ofícios da população litorânea são instrumentos de formação de mundos. Da olaria à fabricação de canoas, a solidão e a coragem entoam o ritmo de quem conhece profundamente os materiais e as condições ecológicas que demandam a existência de canoas e recipientes de argila. Experiências de terra e de água que dão o sustento e garantem a sobrevivência caiçara, mas também são formas de referenciar a vida.

Em oposição a uma massa de produtos industriais predominantes, a sensibilidade estética e o saber-fazer que acompanham mestres e mestras são bens inalienáveis dessas comunidades. Esse aprendizado por observação fez de Janguinho canoeiro autodidata e mecânico de barcos. Conhecimento do meio marinho, do meio lagunar, da fauna e da flora são pré-requisitos para fazer canoas elogiadas por quem passa, mas a construção de um modelo mental aprimorado ao longo de gerações envolve também uma empreitada que começa com a escolha da árvore – antes, canela e peroba; hoje, guarapuvu. Esperar lua boa é mandamento que não se ignora. E aí a imaginação do canoeiro dá lugar à concretização do objeto-mãe na vida caiçara. A derrubada, o corte, o acabamento e o deslocamento da canoa pronta não são feitos sozinhos, mas por um mutirão. A puxada costuma se associar ao festejo com o fandango e a festa é grande quando uma canoa chega ao seu destino. Janguinho, figura importante para quem navega, sabe bem e ainda que admita que hoje canoas de fibra durem muito mais, é a madeira a dona do seu coração.

Num mundo de raiz indígena, a cerâmica da Senhorinha Romão da Costa, oleira da Ilha de Medeiros, em Paranaguá, é herança daquilo que precisa de mais atenção que palavra. O barro longe exigia saída de canoa e entrada no lamaçal do mangue com atenção para a saída de maré. No seu fazer, coletar, transportar e temperar a argila são os passos que precedem a socagem, modelagem, alisamento, corte, raspagem, polimento e queimada da cerâmica. Experiências de mar e de terra que a tornam uma depositária das tradições indígenas, dotadas da delicadeza e da paciência exigidas pelos recipientes que já carregaram muita mandioca em outros tempos. Um saber incorporado porque está no corpo. Tudo em família e obedecendo a tempos espaçados pelas fases da lua.

A memória ainda é a cola potente que dá liga a saberes e fazeres constituintes da vida na beira do mar. E persiste nos gestos coletivos insistentes de quem sabe o valor da terra embaixo de seus pés, sustentáculo de corpos inteiros.

 

 

 

 

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    Foto: Eduardo Macarios

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