Vitrine Panfletária
“Vitrine Panfletária” é resultado de uma performance realizada pelo artista nas ruas de Curitiba, já aplicada em outras seis cidades: Rio de Janeiro, Recife, São Paulo, Porto Alegre, Buenos Aires e Cidade do México. A performance consiste em longas caminhadas pela cidade, com duração entre 4h a 8 horas, nas quais o artista veste um conjunto de roupas sem estampas e percorre o espaço urbano à procura de panfleteiros. A partir desses encontros e das trocas dialógicas estabelecidas, Elilson solicita que cada trabalhador fixe em sua roupa o anúncio panfletado, encerrando a ação apenas quando calça e camisa estiverem integralmente coberta por panfletos.
O efeito dessa performance configura-se em uma espécie de escultura discursiva, que arquiva a diversidade de anúncios e ofertas que um pedestre pode acumular ao caminhar pelo centro de uma cidade. Os textos escritos pelo artista a partir dessas andanças ampliam esse gesto de arquivamento, desdobrando-se em crônicas e relatos multivocais atravessados pelas conversas e acontecimentos do cotidiano urbano.
Este é o terceiro projeto selecionado pelo V Edital de Ocupação do Espaço Vitrine. Nesta edição, com o tema “Boca de Arquivo”, a proposta foi refletir sobre os arquivos como espaços de reelaboração dos limites éticos, históricos, políticos e sociais na construção de narrativas.
Elilson (Recife, 1991) é artista, pesquisador e professor. Doutorando em Artes Visuais na USP com período de intercâmbio na UNAM (Cidade do México), é Mestre em Artes da Cena pela UFRJ e Graduado em Letras pela UFPE. Pesquisa principalmente inter-relações entre arte da performance e mobilidade urbana, compondo ações, instalações, crônicas, relatos e exposições orais.
Cartomantes, igrejas, joias, ofertas, prostituição, promessas eleitorais compõem a polifonia do cotidiano metropolitano que se inscreve no corpo de Elilson (Recife, 1991) ao longo de suas performances. Em ações que registram os fluxos da cidade, dimensões de fé, política, comércio e, sobretudo, os marcadores de uma economia popular orientada pela sobrevivência conformam um arquivo de encontros com trabalhadores que circulam e dependem do espaço urbano, em especial os distribuidores de panfletos.
Desde 2018, o artista desenvolve um programa performativo estruturado da seguinte forma: vestir roupas sem estampas, percorrer centros urbanos, aceitar todos os panfletos recebidos ao longo do trajeto e delegar a cada trabalhador a decisão sobre o local onde sua mensagem será fixada ao corpo. Nesse processo, seu corpo converte-se em espaço expositivo e dispositivo de mediação, como uma vitrine na qual se inscrevem as mais diversas mensagens que permeiam os centros de grandes cidades.
Se, conforme argumenta Guy Debord, a vitrine moderna encena o espetáculo das commodities por meio de dioramas de estilos de vida aspiracionais, Elilson produz o seu avesso crítico ao expor a precariedade estrutural, a saturação informacional e os regimes contemporâneos de disputa pela atenção no comércio de rua e na economia informal. Ao aderirem ao corpo do artista, os panfletos suspendem sua função estritamente promocional e passam a mostrar uma estrutura não tão visível, composta pelas tensões e assimetrias que regulam a circulação de mercadorias, signos e desejos.
Segundo o artista, os encontros com esses trabalhadores engendram um campo de significação plural e contingente. Realizadas em cidades como Rio de Janeiro, Buenos Aires, Cidade do México e Curitiba, as ações já foram interpretadas como estratégia de marketing viral, teatro experimental, arte conceitual, gesto de união ou mesmo como indício de desrazão. A performance se inscreve deliberadamente nessa zona de indeterminação semântica, na qual nenhuma leitura se estabiliza de forma definitiva e o sentido emerge relacionalmente, a partir das interações entre artista, trabalhadores e transeuntes. Em um contexto marcado pela erosão da esfera pública e pelo enfraquecimento da democracia enquanto espaço de construção do comum, a obra de Elilson oferece uma mirada atenta aos anúncios e promessas que atravessam a paisagem urbana, ao mesmo tempo em que reivindica e experimenta formas possíveis de produção de comunalidade. Os diálogos com os panfleteiros constituem um arquivo vivo dessas negociações de sentidos, que variam entre deslocamento e pertencimento, sotaque e estrangeiridade, proximidade e alteridade.
Em todo o material aqui apresentado, a performance se afirma como princípio estruturante e horizonte conceitual da produção de Elilson. Suas obras operam segundo uma lógica entrópica; iniciam-se no gesto de caminhar pela cidade, desdobram-se na exposição das roupas, fotografias e registros sonoros e culminam em relatos orais performativos nos quais o artista ativa memórias das experiências acumuladas ao longo dos percursos. De modo circular, o gesto inicial retorna como destino, encerrando um ciclo que começa e termina no desejo de criar esferas de conexão e instâncias de escuta e diálogo.
Luise Malmaceda














